• Vera Felicidade

Mãe Stella de Oxóssi - Perfil

Reportagem por ocasião do lançamento do livro "Mãe Stella de Oxóssi - Perfil de uma Liderança Religiosa", pela Jorge Zahar Editor



CORREIO DA BAHIA - Folha da Bahia



Trajetória de Mãe Stella é registrada em livro

Salvador, quinta-feira, 09 de outubro de 2003


História e ideais da matriarca do Ilê Axé Opô Afonjá são expostos em publicação que tem lançamento hoje.


por Ana Cristina Pereira


A partir dos anos 80 o nome de Mãe Stella de Oxossi começa a se destacar na Bahia, dentro e fora do candomblé. Eleita ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em 1976, ela intensificou o diálogo com o público externo e tem defendido com firmeza pontos como o status de religião para o candomblé, ou o não-sincretismo com o cristianismo. Estes são alguns pontos escolhidos pela psicoterapeuta Vera Felicidade para apresentar a religiosa no livro “Mãe Stella de Oxossi Perfil de uma liderança religiosa” (Jorge Zahar Editor), que será lançado hoje no terreiro, em São Gonçalo do Retiro.


“Mãe Stella é a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo. Ela começa a atuar no momento em que Salvador clamava por uma liderança negra”, afirma Vera Felicidade. Especialista em terapia gestaltista, a autora opta por perfilar Mãe Stella através das características individuais, que em sua opinião a levaram ao posto de destaque na comunidade interna e no candomblé como um todo: estabilidade, flexibilidade e coragem. Nesses três elementos, reflete Vera, estariam o aparato emocional que fez Mãe Stella conseguir organizar internamente o terreiro e, aos poucos, ampliar sua atuação, expondo com firmeza suas opiniões. “Exercendo temperança e equilíbrio, com atitudes por vezes vistas como conciliatórias, ela efetivamente realiza e constrói”, anota Vera. A título de exemplo, cita ações como a oficialização da posse de terra adquirida por Mãe Aninha (que fundou o terreiro em 1910), a criação da escola que funciona nas dependências do terreiro ou o Museu Ilê Ohum Lailai, organizado pela própria Vera em 1981 (na casa, a psicoterapeuta ocupa o posto de Oni Kòwé - dona dos escritos).


Vera conta que, a partir daquele momento ficou bastante “integrada” ao Opô Afonjá, que começou a frequentar em 1978. Desde então, acompanha com interesse e admiração a trajetória de Mãe Stella. O livro é o reflexo desta convivência, já que Vera dá uma espécie de depoimento pessoal, traçando o perfil de Mãe Stella muito baseado na sua experiência. Ela também recorre às muitas entrevistas dadas por Mãe Stella nas quais a ialorixá defende com veemência “a pureza de propósitos e rituais” do candomblé.


Apesar de evitar o biografismo (“Faço um corte transversal”), o livro conta rapidamente a história de Mãe Stella, que nasceu em Salvador, em 1925, numa família negra de classe média. Criada longe do universo do candomblé, a manifestação religiosa foi interpretada como uma possível herança da avó. “Desde os 13 anos Stella começava a transgredir os padrões de conduta próprios de sua educação e a frustrar expectativas familiares”, conta Vera. Levada ao Afonjá, foi iniciada aos 14 anos por Mãe Aninha.


Mãe Stella se formou em enfermagem, casou-se e chegou a exercer a profissão, mas se afastou de tudo para se dedicar ao candomblé. Foi uma das principais auxiliares de Mãe Senhora, a terceira ialorixá da casa. Sua escolha, em março de 1976, não deixou de causar surpresa, já que havia várias filhas de santo mais antigas cotadas para o cargo. O jogo foi feito pelo Oluô Agenor Miranda, autoridade máxima no jogo de búzios, que decretou: “Não estou aqui para ser agradável a quem quer que seja. Sei que muitos dos presentes já fizeram sua escolha, porém eu estou aqui para cumprir a determinação de Xangô, e advirto a todos… que a vontade de Xangô é lei”.


Na avaliação de Vera, o período entre 1976 e 1983 serviu para Mãe Stella “arrumar a casa”. O ano de 1983, por exemplo, é bastante significativo. Foi quando aconteceu em Salvador a II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura, em que Mãe Stella, ao lado de outras ialorixás, firmou posição contra o sincretismo. Reconhecendo a importância estratégica da associação no passado ela passou a se posicionar dizendo que o sincretismo era um “resquício da escravidão”, uma “mistura vã” que só enfraquece o candomblé. “Santa Bárbara não é Iansã”, afirmou altiva, sem receio de comprar briga.


“Mãe Stella de Oxossi - Perfil de uma liderança religiosa”, de Vera Felicidade de Almeida Campos, tem evento de lançamento no Ilê Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro.


Lançamento: Hoje, às 18 hrs, no terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro (9.10.2003)

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