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Psicoterapia Gestaltista

Atualizado: 14 de abr. de 2023


English version at the end


por Vera Felicidade de Almeida Campos


Psicologia é a ciência que estuda e explica o comportamento humano. Existem quatro abordagens, escolas ou conceituações básicas para esse estudo.


A abordagem psicanalítica (Freud, M. Klein, H. Sullivan, Lacan etc.) entende o comportamento humano como a resultante de um processo de motivação inconsciente. O comportamento é visto, basicamente, como uma expressão projetiva do Ego, Id e Superego. Para os behavioristas (Watson, C. Hull, Skinner) o comportamento é resultante do condicionamento de reflexos inatos. Para os funcionalistas (Piaget, W. James, Dilthey) o comportamento é sinônimo de adaptação, é a expressão da interação entre organismo e meio. Os gestaltistas clássicos (a Gestalt Psychology - Koffka, Koehler, Wertheimer) entendem o comportamento como processo perceptivo.


A corrente psicanalista, desde a sua fundação (Freud), preocupou-se com os aspectos terapêuticos, com o tratamento das neuroses, das fobias. Os behavioristas e os funcionalistas construiram uma teoria para explicar o comportamento humano, tanto quanto técnicas para modificá-lo, terapeutizá-lo via social, via educacional.


Os gestaltistas explicaram o comportamento humano como sendo a resultante de processos perceptivos. A preocupação dos gestaltistas era perceber, configurar a dimensão humana; não podiam terapeutizar o que ainda não era globalmente percebido. A tarefa principal consistia em erradicar a visão elementarista e organicista reinante na conceituação psicológica. Não foi criada uma psicoterapia gestaltista.


Nos anos 60 surge F. Perls como criador da gestalt therapy. Ele falava que o todo não é a soma das partes (conceito da Gestalt Psychology) mas, preso à ideia, à crença na existência do inconsciente não conseguia admitir o conhecimento como um dado relacional, um dado perceptivo, continuava achando que o conhecimento era o resultado de um processo interno, subjetivo. Ele não entendia o comportamento como processo perceptivo, entendia comportamento como expressão das motivações inconscientes. Esse dualismo conceitual o impediu de perceber o ser-no-mundo, esta gestalt. Pensando ainda como Freud, em ser versus mundo, exilou-se de qualquer contexto gestáltico, no qual a unidade é um conceito fundamental. Lutando por "perca sua mente, ganhe seus sentidos" escreveu seu manifesto dualista.


Em 1968, me formei em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e iniciei meu trabalho em psicoterapia, criando a Psicoterapia Gestaltista.


Em 1972, ao escrever Psicoterapia Gestaltista Conceituações, dizia:


Este livro resulta de uma visão global unitária do fenômeno humano. Nesse sentido ele se insere e se fundamenta no gestaltismo como teoria a respeito do comportamento humano, na fenomenologia e no materialismo dialético (que não deve ser confundido com o marxismo como ideologia), enquanto abordagem metodológica. Essa visão global e unitária ultrapassa os seus constituintes fundamentantes - o gestaltismo, a fenomenologia, o materialismo dialético - à medida que os sincroniza em suas unicidades mediadoras totalizantes.


Atingimos essa sincronização partindo de uma atitude fenomenológica - conhecer o fenômeno, no caso o homem, sem a priori, por meio de sua evidência, pela apreensão de sua essência. Esse ponto de partida nos explicitou, nos revelou um todo - o homem-no-mundo. A percepção disso nos remeteu a questionamentos de como se percebe, do que é percebido ou não, enfim, das leis da percepção, de seu significado e organização, intrínsecos ao processo do estar-no-mundo, contextuado no tempo e no espaço. Fundamentamo-nos na teoria gestaltista acerca do comportamento humano e no materialismo dialético, desde que ao surgir o homem, o todo, uma Figura, insinuou-se o seu contexto, Fundo, o mundo. Por closura - um dos aspectos que caracteriza a organização perceptiva -, percebemos a dimensão tempo, o espaço, o situante, a realidade, a matéria, o movimento, continuidade que caracteriza os processos cósmicos, existenciais. Deu-se a sincronização, já que não unilateralizamos a percepção do fenômeno processual a suas mediações, configurações ou essências, mas sim apreendemos sua mediação configurativa essencial; por issoo fato de, neste livro, ser estudado o homem como um todo, questionando e respondendo sobre sua gênese, seus movimentos de constituinte e constituído. Esse aspecto adquire importância à medida que nas posições pragmáticas, dualistas, estruturalistas, marxistas, religiosas, sociológicas, antropológicas, físicas etc. não é feito um questionamento sobre o que é o homem, embora dele se fale e se apresentem soluções para a sua problemática, principalmente nas diversas visões terapêuticas unilateralmente fundamentadas, nas quais procuram e justificam tais soluções sem os dados do problema. Tal absurdo só ocorre porque é feito por meio de preconceituações, preconceitos, e nunca de conceituações. Neste livro procura-se conceituar o homem em seu contexto-temporalidade vivencial - levando em conta as estruturações e desestruturações daí decorrentes, salientando aspectos dogmáticos impeditivos dessas realizações e apreensões. [pags.XI-XII]


Em 1993, ao escrever Terra e Ouro são Iguais - Percepção em Psicoterapia Gestaltista, eu dizia:


"Ser psicoterapeuta é uma forma de ser no mundo com o outro. Não acredito que exista uma função psicoterápica, não vejo os processos relacionais em função de resultados, embora saiba que a profissão que exerço tem uma estrutura sócio-econômica bem delineada, funcionalmente especificada. Para mim, o que caracteriza o psicoterapeuta é a maneira como ele percebe, o que ele expressa - fala e comunica - como ele se estrutura, quais seus posicionamentos.


Sempre tive um enfoque teórico, conceitual, por achar que só a partir daí posso perceber globalmente o outro que está comigo enquanto "cliente". É esse enfoque teórico que me permite perceber o outro não como meu semelhante, pregnantemente, mas como uma queixa, uma dificuldade, uma mágoa, uma incapacidade, uma possibilidade não realizada, contingenciada, limitada por necessidades, um posicionado diante de mim.


Minha vivência psicoterápica tem sido um constante questionamento no sentido de não cegar a minha ferramenta de trabalho, eternizando um posicionamento teórico. Quando criei os conceitos responsáveis pela estruturação da psicoterapia gestaltista, além de achar que a neurose era fundamentalmente não aceitação, conceituava percepção como conhecer pelos sentidos, seguindo a fundamentação gestaltista, antidualista e não apoiada na hipótese do inconsciente. Nesse contexto, eu acreditava que, por meio da atitude de aceitação, realizaria a antítese necessária à mudança. Em 1978, em meu livro Mudança e Psicoterapia Gestaltista eu procurava entender e explicar por que isso ocorria: "... na psicoterapia pode haver mudança como ajuste ou como transformação; (...) a psicoterapia pode ser um posicionamento, (...) a vontade do cliente de mudar, de fazer psicoterapia, é, às vezes, a procura de um local para esconder, guardar, criar ou acalentar seus problemas, O psicoterapeuta só tem sentido de existir como propiciador de antíteses, de mudanças; caso ele se posicione, estabilize-se, defina-se como portador de verdades, teorizador de realidades, e representante/defensor de ordens constituidas, sejam quais forem, mesmo as mais revolucionárias, ele se nega como psicoterapeuta, virando autoridade, determinante de melhor bem-estar, ajuste, nunca de transformação, sincronização existencial".


Mais tarde percebi que conhecer pelos sentidos, percepção, era relação. Essa globalização de processos me fez enfatizar o questionamento como alavanca propiciadora de mudança, pois neurose basicamente era distorção perceptiva, por isso o questionamento, a denúncia possibilitarem outras percepções responsáveis por mudanças. Mudando a percepção, muda-se o comportamento, era o conceito dominante.


Hoje, 24 anos depois do início de meu trabalho de conceituações em psicoterapia gestaltista, sei que neurose é não aceitação e distorção perceptiva, que perceber é conhecer pelos sentidos, que tal relação é a percepção. Mas percebo também que percepção é vivência, que neurose é posicionamento. Daí minha atitude psicoterápica de antítese basicamente se caracterizar pela quebra de posicionamentos - é o que expresso neste livro, quando abordo as clássicas dualidades configurativas do humano, mostrando que são posições unilateralizantes, parcializantes da apreensão do humano: sujeito-objeto, quantidade-qualidade, por exemplo.


Como psicoterapeuta, apesar de meu posicionamento teórico, sinto-me contemplativa quando me fusiono com o problema do outro a fim de globalizá-lo. Só encontramos a solução se nos dedicarmos ao problema, se nele mergulharmos. Buscar soluções fora do contexto de estruturação do problema é jamais encontrá-las. Esse tipo de solução é o jeitinho adaptador, via de regra conseguido por meio de interpretações e controle de comportamento. O psicoterapeuta sequer pode querer que o indivíduo melhore, o que ele quer é fazer com que o indivíduo perceba por que está assim: medroso, confuso, sem se aceitar, dividido, neurótico enfim." [pags.127-129]



- Vera Felicidade -

agosto de 1996


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- Vera Felicidade de Almeida Campos

- Psicologia - Psicoterapia

- UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro

- Patrice Lumumba University, Moscou


Ilustrações: arquivo pessoal

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Gestalt Psychotherapy

since 1972


by Vera Felicidade de Almeida Campos


Psychology is the science that studies and explains human behavior. There are four basic approaches, schools or conceptualizations for this study.


The psychoanalytic approach (Freud, M. Klein, H. Sullivan, Lacan, etc.) understands human behavior as the result of an unconscious motivational process. Behavior is seen, basically, as a projective expression of the Ego, Id and Superego. For behaviorists (Watson, C. Hull, Skinner) behavior is the result of the conditioning of innate reflexes. For functionalists (Piaget, W. James, Dilthey) behavior is synonymous with adaptation, the expression of the interaction between organism and environment. The classical Gestaltists (Gestalt Psychology - Koffka, Koehler, Wertheimer) understand behavior as a perceptual process.


The psychoanalytic current, since its foundation (Freud), was concerned with therapeutic aspects, with the treatment of neuroses and phobias. The behaviorists and functionalists built a theory to explain human behavior, as well as techniques to modify it socially and educationally.


Gestaltists explained human behavior as being the result of perceptual processes. The gestaltists' concern was to perceive or to configure the human dimension; they could not submit to therapy what was not yet globally perceived. The main task was to eradicate the elementarism and organicism reigning in psychological conceptualization. A Gestalt psychotherapy was not created.


In the 60s F. Perls appeared as the creator of Gestalt therapy. He said that the whole is not the sum of the parts (Gestalt Psychology concept) but, stuck to the idea, to the belief in the existence of the unconscious he could not admit knowledge as a relational data or a perceptual data. He kept thinking that knowledge was the result of an internal, subjective process. He did not understand behavior as a perceptual process; he understood behavior as an expression of unconscious motivations. This conceptual dualism prevented him from perceiving the being-in-the-world, this gestalt. Still thinking like Freud - being versus the world - he exiled himself from any gestalt context, in which unity is a fundamental concept. Striving to "lose your mind, gain your senses," he wrote his dualistic manifesto.


In 1968, I graduated in Psychology from the Federal University of Rio de Janeiro, and started my work in psychotherapy, creating Gestalt Psychotherapy.


In 1972, when writing Gestaltist Psychotherapy Conceptualizations, I said:


This book results from a unitary global vision of the human phenomenon. In this sense, it is inserted and based on gestaltism as a theory of human behavior, on phenomenology and on dialectical materialism (which should not be confused with Marxism as an ideology), as a methodological approach. This global and unitary vision goes beyond its fundamental constituents - gestaltism, phenomenology, dialectical materialism - as it synchronizes them in their totalizing mediating unicities.


We reached this synchronization starting from a phenomenological attitude - to know the phenomenon, in this case man, without a priori, through its evidence, through the apprehension of its essence. This starting point revealed to us a whole - man-in-the-world. The perception of this led us to question how one perceives, what is perceived or not, in short, the laws of perception, its meaning and organization, intrinsic to the process of being-in-the-world, contextualized in time and space. We base ourselves on the gestalt theory about human behavior and on dialectical materialism, since when man appeared, the whole - a Figure - and his context, that means his Background or the world, was insinuated. By closeness - one of the aspects that characterize the perceptive organization - we perceive the dimension time, the space, the situant, reality, matter, movement, continuity that characterizes the cosmic, existential processes. Synchronization has occurred, since we do not unilateralize the perception of the processual phenomenon to its mediations, configurations, or essences, but rather we apprehend its essential configurative mediation; that is why, in this book, man is studied as a whole, questioning and answering about his genesis, his constituent and constituted movements. This aspect becomes important as in the pragmatic, dualistic, structuralist, Marxist, religious, sociological, anthropological, physical, etc. positions, there is no questioning of what man is, although solutions to his problems are discussed and presented, especially in the various one-sidedly based therapeutic visions, in which solutions are sought and justified without the data on the problem. Such absurdity only occurs because it is done through prejudices, preconceptions, and never through conceptualizations. This book seeks to conceptualize man in his experiential context-temporality, taking into account the structuring and destructuring arising therefrom, highlighting dogmatic aspects impeding such realizations and apprehensions. [pp.XI-XII]


In 1993, when writing Earth and Gold are Equal - Insight in Gestaltist Psychotherapy, I said:


Being a psychotherapist is a way of being in the world with the other. I don't believe that there is a psychotherapeutic function, I don't see relational processes by their results, although I know that the profession I practice has a well delineated socio-economic structure, functionally specified. For me, what characterizes the psychotherapist is the way he perceives, what he expresses - he speaks and communicates - how he structures himself, what his positions are.


I have always had a theoretical, conceptual approach, because I believe that only from this point on I can globally perceive the other that is with me as a "client". It is this theoretical focus that allows me to perceive the other not simply as my fellow man, but as a complaint, a difficulty, a hurt, an incapacity, an unrealized possibility, contingent, limited by needs, a being positioned before me.


My psychotherapeutic experience has been a constant questioning in the sense of not blinding my work tool, eternalizing a theoretical position. When I created the concepts responsible for structuring Gestaltist Psychotherapy, besides thinking that neurosis was fundamentally non-acceptance, I conceptualized perception as knowing through the senses, following the gestaltist concepts, anti-dualist and not supported by the hypothesis of the unconscious. In this context, I believed that, through the attitude of acceptance, I would realize the antithesis necessary for change. In 1978, in my book Change and Gestalt Psychotherapy, I tried to understand and explain why this was so: in psychotherapy there can be change as adjustment or as transformation; (...) psychotherapy may be a positioning, (...) the client's will to change, to undergo psychotherapy, is, sometimes, the search for a place to hide, to keep, to create or to shelter his problems. The psychotherapist only makes sense to exist as a propitiator of antithesis, of change; if he positions himself, stabilizes himself, defines himself as the bearer of truths, theorizer of realities, or representative/defender of established orders, whatever they may be, even the most revolutionary, he denies himself as a psychotherapist, becoming an authority, determinant of better well-being, adjustment, never of transformation, existential synchronization.


Later I realized that knowing through the senses - perception - was relationship. This globalization of processes made me emphasize questioning as a lever for change, because neurosis was basically perceptual distortion, so questioning, denouncing, made possible other perceptions responsible for change. Changing perception, one changes behavior, was the dominant concept.


Today, 24 years after I started my work of conceptualization in Gestalt Psychotherapy, I know that neurosis is non-acceptance and perceptual distortion, that to perceive is to know through the senses, that such a relation is perception. But I also know that perception is experience, that neurosis is positioning. Hence my psychotherapeutic attitude of antithesis is basically characterized by the breaking of positions - this is what I express in this book, when I approach the classic configurative dualities of the human, showing that they are unilateralizing positions, like partializing the apprehension of the human as subject-object, quantity-quality, for example.


As a psychotherapist, despite my theoretical position, I feel contemplative when I fuse with the other's problem in order to globalize it. We can only find the solution if we dedicate ourselves to the problem, if we immerse ourselves in it. To look for solutions outside the structuring context (of the problem) is to never find them. This kind of solution is the adaptive way, usually achieved through interpretations and behavior control. The psychotherapist cannot even want the individual to get better. What he wants is to make the individual realize why he is like this: fearful, confused, not accepting himself, divided, neurotic, and so on. [pp.127-129]



- Vera Felicidade -

August 1996


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- Vera Felicidade de Almeida Campos

- Psychology - Psychotherapy

- UFRJ - Federal University of Rio de Janeiro

- Patrice Lumumba University, Moscou


Illustrations: personal archive

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